Achávamos que
o ensino de tradução deveria ser prático,
dinâmico e interessante sem perder de vista
a realidade do nosso mercado de trabalho. Sempre tendo
em vista a formação de tradutores competentes,
desenvolvemos um currículo que, ao longo dos
anos, foi sendo aprimorado (e que é regularmente
atualizado acompanhando as tendências e exigências
do mercado) e abrange várias áreas de
tradução entre as quais, informática,
literária, jurídica e financeira.
Hoje, já contamos
algumas centenas de alunos formados e podemos dizer,
com orgulho, que o método que criamos funciona.
E funciona bem! Há alunos que já saem
do curso encaminhados ou que, com as ferramentas e
o conhecimento adquiridos conosco, partem em busca
de trabalho e são bem-sucedidos.
Algo que considero
importante para o sucesso da formação
de tradutores é manter um número reduzido
de alunos por turma (que devem ser aprovados em um
teste de seleção) e poder contar com
uma equipe bastante ampla de professores. Isso garante
uma diversidade de experiências e permite que
todos os alunos – mesmo o mais tímido
deles – participem das discussões em
sala de aula e tenham a oportunidade de apresentar
soluções próprias.
Outro fato que incentiva
essa interatividade, tornando-a quase espontânea,
é a disposição das cadeiras da
sala de aula em forma de “U”. Uma maior
cumplicidade é criada porque todos se vêem,
o que facilita o trabalho em grupo e possibilita que
se observe a reação dos colegas ao seu
texto traduzido.
Ah, sim! É
importante explicar que, enquanto um aluno lê
sua solução para a tradução
de determinado texto, os outros devem atuar como revisores
e devem ser convidados a apresentar críticas
construtivas. Quando fazem isso, eles estão
desenvolvendo a capacidade de distinguir uma solução
ruim de uma boa solução e, mais ainda,
aprendendo a distinguir uma boa solução
de uma que seja excelente.
Aliás, a busca
de soluções para uma tradução
é um trabalho, teoricamente, sem fim. Sempre
haverá algo a ser melhorado. Esse é
um dos motivos pelos quais não devemos trabalhar
com um “modelo” ou com uma “resposta”
que viria a ser chamada de “a tradução
correta”. Mesmo assim, em praticamente todas
as turmas, há sempre alguém que pergunta
espantado “mas vocês não vão
dar a resposta?!”
Não existe
uma “resposta”. É importante deixar
isso claro (apesar das resistências iniciais)
porque acredito que disso dependerá o nível
de desenvoltura com que os alunos conseguirão
“enfrentar” um texto. Eles cometerão
erros, farão leituras equivocadas, tropeçarão
em determinadas frases, ficarão desapontados
com algumas de suas soluções de tradução...
Isso tudo é necessário e importante
para a formação desses futuros tradutores.
O cansaço, o desespero e a euforia são
sentimentos que precisam ser vivenciados para que
eles possam entender melhor do que se trata o ofício
da tradução.
Tenho um pequeno exemplo
bastante ilustrativo sobre como seria nocivo à
criatividade dos alunos a apresentação
de uma “resposta” para os textos traduzidos.
Em um dos módulos do curso, há um artigo
cujo título, em inglês, é Blow
up or Put up. O título é traduzido por
último, após a leitura, análise
e tradução do próprio texto e
o professor que, obviamente, já fez o seu dever
de casa e tem “na manga” uma boa tradução
para aquele título (para o caso de faltarem
ótimas soluções ou se houver
um “branco” coletivo) se surpreende quando
os alunos apresentam não uma opção,
mas várias, e interessantíssimas! “Explodir
ou engolir”, “Soltar os cachorros ou engolir
sapos”, “Estourar ou Agüentar”.
Sendo que nenhuma delas, diga-se de passagem, igual
àquela pensada pelo professor-tradutor: “Botar
para quebrar ou Deixar rolar”.
Por isso, digo e repito:
é preciso fazer o aluno pensar (o que dá
mais trabalho do que simplesmente entregar a resposta).
A solução que é apresentada pelo
professor-tradutor tem um peso muito grande para o
aluno (um aprendiz que, geralmente, olha o professor
com respeito e admiração), ela é
definitiva e, inevitavelmente, abafa a criatividade
do aluno.
Outro aspecto que
também é essencial para a formação
do bom tradutor é fornecer a ele informações
sobre o mercado. Ele precisa saber o que é
uma lauda, a diferença entre tradução
e interpretação, que existe um sindicato,
uma associação profissional, que há
uma tabela de referência de preços e
listas de discussão na Internet para os profissionais
da área.
Ele também
precisa conhecer as ferramentas de tradução
que estão se tornando importantíssimas.
Enfim, precisa ser apresentado ao mercado e a nossa
proposta é inseri-lo nesse contexto fazendo
com que ele tenha consciência do valor do trabalho
do tradutor, aquele que “abre a janela para
deixar entrar a luz, quebra a casca para podermos
comer a amêndoa, puxa a cortina de lado para
olharmos para o lugar mais sagrado; remove a tampa
do poço para podermos chegar à água”
(prefácio da versão autorizada da Bíblia
de 1611).