Traidor Invisível
By
Claudia Moreira,
Journalist, Translator and Reviewer,
English into Brazilian Portuguese
claudia_moreira@terra.com.br
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English
Version
Há um conhecido provérbio italiano que afirma ser o tradutor um
traidor (traduttore, traditore), porque ele não
é capaz de ser fiel ao texto original. Para a
maioria das pessoas, uma boa tradução
é aquela que justamente não se parece
com uma tradução. Ou seja, o tradutor
deve ser invisível e deve se limitar à
transmissão do significado do original, por meio
de um texto fluente.
São essas as constatações que nos levam às perguntas
que dão origem a este artigo. Será que
somos todos traidores e para que nosso trabalho seja
considerado bom, temos de ser invisíveis? Por
que as pessoas em geral pensam assim e que conseqüências
isso traz para o nosso trabalho?
Comecemos pela questão "tradutor, traidor". Aqueles indivíduos
capazes de ler textos ou de ver filmes em seus idiomas
originais quase sempre acham a tradução
dos livros e as legendas de baixa qualidade. Quem
de nós nunca ouviu alguém dizendo no
cinema "ih, mas o personagem não falou só
isso. O tradutor não sabe nada." A maioria
das pessoas que faz esse tipo de comentário
desconhece as dificuldades inerentes à tradução
para cinema. Para legendar um filme, além de
entender os diálogos e de ter conhecimentos
profundos sobre a cultura do país de origem
da história, o tradutor deve se preocupar com
o tempo de duração da cena, pois uma
legenda não pode "vazar" para a cena seguinte,
o espectador tem de ser capaz de ler toda a legenda
durante a cena específica.
Claro que, algumas vezes, os leigos têm razão. Afinal há
traduções de cinema que são simplesmente
fracas mesmo e poderiam gerar um divertido programa
de certo/errado... Mas, o tradutor de cinema, e também
quem trabalha com TV e vídeo - com algumas
diferenças - , é obrigado a reduzir bastante
a fala dos personagens na legendagem, limitando-se
a transmitir o contexto do que é dito. Por
isso, a tradução de filmes para qualquer
meio é muito mais uma adaptação
do que a simples transcrição no idioma
de destino.
Como as pessoas tendem a considerar o trabalho de tradução como
essa mera troca de palavras de uma língua para
outra, é comum ouvirmos comentários
que acabam por desvalorizar nosso trabalho. Se fosse
assim, traduzir seria realmente uma tarefa fácil,
já substituída por programas de computador,
e não um trabalho intelectual às vezes
extremamente desgastante. Quem de nós não
tem um parente ou amigo que de vez em quando aparece
com o manual de algum equipamento eletrônico
e pede para "você traduzir rapidinho"? Eu já
encontrei uma forma de cortar esse tipo de situação:
pego o manual, faço uma contagem rápida
das páginas e informo o valor a ser pago pela
minha "tradução rapidinha". Na maioria
das vezes, isso é o que basta para fazer com
que o folgado desista...
A principal conseqüência dessa visão, chamada universalista,
para a atividade tradutória é essa idéia
de que se trata de uma tarefa fácil. A partir
dessa perspectiva, traduzir seria fácil porque
não passaria de uma atividade automática
e mecânica, plena e fiel ao original (a simples
troca de invólucros). Outro efeito nefasto
da propagação dessa idéia ao
longo do tempo é a inadequação
da remuneração oferecida pelo trabalho
de tradução. Como ele é percebido
como tarefa fácil, com freqüência
estima-se um pagamento baixo pelo trabalho a ser executado.
É comum que as empresas e pessoas se surpreendam
com os preços cobrados, não estando
preparadas para desembolsar os valores que seriam
adequados por um projeto.
Invisibilidade impossível -
Outro ponto central deste artigo é a idéia
da "invisibilidade" do tradutor, que se reflete nas
instruções muitas vezes enviadas ao
tradutor, como "reproduzir totalmente a idéia
do texto original, seguir à risca o estilo
do original e garantir que a tradução
tenha a mesma fluência e naturalidade do texto
original". Para os críticos, em geral, uma
boa tradução é aquela que justamente
não se parece com uma tradução
e na qual o tradutor consegue transmitir todo o significado
do texto original. Dessa forma, nega-se completamente
a intervenção fundamental do tradutor
no texto.
Na verdade, nosso trabalho não é simplesmente trocar palavras,
ele é muito mais complexo porque exige a troca
de sentidos. Se fosse simples, os programas de tradução
automática já bastariam para a realização
dessa tarefa. No entanto, como é necessário
trocar o sentido, até para garantir a tão
desejada fluência na língua de chegada,
nada substitui o pensamento humano e a capacidade
de abstração do ser humano. Nossa tarefa
é transmitir o sentido do texto, pois nem sempre
conseguiremos encontrar equivalentes exatos. Por exemplo,
em polonês, a palavra mesa não tem uma
contraparte, mas duas: stól (que é a
mesa de jantar) e stolik (que são as mesas
de café ou telefone). Nesse caso, assim como
em muitos outros, nos quais não é possível
substituir uma palavra por outra, teríamos
que adaptar o texto. Traduzir é um processo
mental de troca de sentido extremamente complexo,
nos quais fazemos escolhas com base no momento em
que vivemos, no país em que moramos e, mesmo,
na nossa história e experiência de vida,
o tempo todo.
Além da diferença da língua, há uma série
de diferenças que o tradutor deve considerar
em seu trabalho. Há algumas diferenças
nas quais ele está mergulhado, como seu contexto
social e histórico. Por exemplo, recentemente
a TV por assinatura exibiu uma mini-série sobre
o movimento rap norte-americano. Imagino o quanto
essa legendagem tenha sido difícil, uma vez
que nosso contexto social e histórico é
diferente. É claro que o português falado
no Brasil apresenta variações devido
ao contexto social dos falantes, por exemplo, mas
diferentemente do que acontece com o rap nos EUA,
essas variações não ocorrem de
forma intencional. Nos EUA, a linguagem do rap é
usada com freqüência como forma de protesto.
Se o tradutor optar por utilizar uma linguagem mais
informal e com mais gírias, isso não
refletirá necessariamente todo o contexto social
do rap. O contexto histórico também
influencia a criação do texto traduzido.
Se alguém fosse produzir uma tradução
de Shakespeare ou Cervantes hoje, com certeza seu
texto seria diferente de um texto traduzido há
muitas décadas.
Também, se aceitássemos a idéia de que a tradução
é uma simples troca de significados, estaríamos
considerando que o tradutor é capaz de ler
a mente do autor e passar para outra língua
o que ele quis dizer. Ora, o leitor também
não é capaz de assimilar exatamente
tudo o que um autor quer dizer; toda leitura que fazemos
é igualmente influenciada pela nossa formação,
pelo meio em que vivemos e pelo momento.
Por causa desses fatores, é difícil considerar o tradutor como
um ser invisível. Por melhor e mais fluente
que seja seu texto, ele sempre sofrerá a influência
do meio e do momento em que vive. Nenhum tradutor
trabalha simplesmente trocando palavras. O nosso trabalho
é adaptar e transferir o significado dessas
palavras para a realidade local. Não é
por acaso que a tradução de softwares
é chamada "localização", ou seja,
a adaptação aos padrões locais.
Traidor contextualizado -
Felizmente, essa visão está sendo substituída,
aos poucos, por uma visão relativista, na qual
o pensamento é construído lingüisticamente.
Nessa visão, as línguas representam
os conceitos e não os objetos. Esses conceitos
se formam na mente dos falantes, independentemente
dos objetos que representam.
Antes, os estudiosos se perguntavam se era possível transferir o significado
de uma língua para outra. Os estudiosos contemporâneos
passaram a questionar até que ponto é
possível transferir esse significado ou até
que ponto as línguas são formadas pela
"natureza humana" e até que ponto elas são
moldadas pela cultura.
Partindo desses princípios e considerando a
influência do meio sobre o tradutor, ele não
mais é considerado um "traidor". Sabe-se hoje
que somos influenciados pelo momento histórico,
pela cultura e pela sociedade na qual vivemos.
Também se sabe atualmente que antes de traduzir um texto, é necessário
contextualizá-lo, identificando onde, em que
época e em que circunstâncias ele foi
escrito. Rosemary Arrojo, em seu livro Oficina de
tradução, descreve esse processo:
O texto, como o signo, deixa de ser a representação "fiel" de
um objeto estável que possa existir fora do
labirinto infinito da linguagem e passa a ser uma
máquina de significados em potencial. A imagem
exemplar do texto "original" deixa de ser, portanto,
a de uma seqüência de vagões que
contêm uma carga determinável e totalmente
resgatável. Ao invés de considerarmos
o texto, ou o signo, como um receptáculo em
que algum "conteúdo" possa ser depositado e
mantido sob controle, proponho que sua imagem exemplar
passe a ser a de um palimpsesto, do grego palímpsestos
("raspado novamente"), refere-se ao "antigo material
de escrita, principalmente o pergaminho, usado, em
razão de sua escassez ou alto preço,
duas ou três vezes [...] mediante raspagem do
texto anterior".
Metaforicamente, em nossa "oficina", o "palimpsesto"
passa a ser o texto que se apaga, em cada comunidade
cultural e em cada época, para dar lugar a
outra escritura (ou interpretação, ou
leitura, ou tradução) do "mesmo" texto.
Considerando-se essa visão, os tradutores não mais são
vistos como traidores, mas como os responsáveis
pela adaptação do texto original, ao
contexto social e histórico atual.
O trabalho de tradução vem recebendo o reconhecimento que merece
à medida que as pessoas e empresas necessitam
de melhor qualidade de resultados e tomam conhecimento
das dificuldades relativas ao processo. Cada modalidade
de tradução (literária, jurídica,
informática, cinema, TV e vídeo e as
demais) tem suas particularidades, como o uso de ferramentas
especiais, a limitação imposta pelo
espaço ou pelo tempo, redação
do original por falantes não nativos do idioma
original e tantas outras.
Estes aspectos, associados às crescentes necessidades causadas pela globalização,
vêm tornando evidentes as questões abordadas
acima e evidenciam o processo de tradução
como extremamente complexo e especializado.
Por isso, quando aquele cunhado chato aparecer com o manualzinho do aparelho
eletrônico, argumente com ele essas questões
filosóficas. E no final, apresente o orçamento
da sua tradução. Garanto que ele vai
desistir rapidinho...
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