Que país legal! Gostei; vou levar
By
Fabiano Cid,
Managing Director,
Ccaps Translation and Localization,
Rio de Janeiro, Brazil
fcid@ccaps.net
www.ccaps.net
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English
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"O Brasil é, em muitos aspectos, um país à parte, unificado
pela língua portuguese, sua cultura distinta
e dimensões continentais e por essas características
isolado." (Michael Reid, The Economist)
O português é a quinta língua do mundo, falado por cerca
de 200 milhões de pessoas nos continentes europeu,
sul-americano, africano e asiático. Desse total,
176 milhões vivem no país conhecido
como o "gigante sul americano". O PIB brasileiro está
entre os 10 maiores do mundo, alcançando uma
paridade de poder aquisitivo de US$ 1,34 trilhões.
O país é um dos três maiores mercados
consumidores de jatos executivos, refrigerantes, telefones
celulares e aparelhos de TV, e é o sétimo
maior mercado de software do mundo.
Durante praticamente cinco séculos de existência, um dos princípios
fundamentais da diplomacia brasileira tem sido a resolução
pacífica de conflitos. Mas com relação
aos produtos importados, será que a política
de não intervenção e fronteiras
pacíficas encontra eco na população
consumidora? Será que uma recepção
calorosa, conversas amigáveis e um comportamento
informal significam a total aceitação
de produtos e serviços estrangeiros? É
um país muito legal, mas... Será que
você consegue levar?
É PORTUGUÊS CONTINENTAL PORQUE
É FALADO EM UM PAÍS DE PROPORÇÕES
CONTINENTAIS?
Houve um tempo em que Portugal e Brasil falavam a mesma língua. Embora
oficialmente os dois países e seus povos ainda
falem o mesmo idioma, o setor de localização
já percebeu, há muito tempo, que o Brasil
é um país singular, um local com terminologias
e estilos específicos. Como disse o autor Bert
Esselink em seu livro A Practical Guide to Localization,
o português brasileiro é o único
dos chamados "idiomas de primeiro e segundo nível"
especificamente voltado para um local determinado:
o Brasil. Mas há quanto tempo essa questão
foi reconhecida?
Eu lembro que em 1997 estava trabalhando em Londres para uma agência de
tradução no Brasil. Eles estavam prestando
serviços de localização para
o português para uma grande empresa européia
de software da área de negócios. Enquanto
a tradução e a revisão eram feitas
por fornecedores brasileiros - alguns dos quais moravam
no exterior, como eu -, o manual de estilo e o glossário
haviam sido criados em Portugal. A validação
dos novos termos também era terceirizada, e
um falante de português ibérico que trabalhava
no escritório do cliente, fazia a verificação
na Europa. Eu achava incrível o fato de a Internet
permitir essa mistura de lugares e profissionais,
mas só fui me dar conta do resultado lingüístico
disso tudo dois anos depois. Após o lançamento
do produto no mercado brasileiro, os funcionários
das empresas que o utilizavam estavam enfrentando
dificuldades enormes. Os menus da interface eram incompreensíveis,
as caixas de diálogo eram risíveis e
a ajuda on-line, simplesmente inútil.
A essa altura eu já tinha fundado a Ccaps Translation and Localization.
Em 2000, quando um novo cliente nos EUA nos consultou
sobre a localização do software de negócios
deles para o português do Brasil, eu pude dar
conselhos valiosos que poucos sabiam. Eles já
tinham localizado o produto para o português
de Portugal, mas agora estavam desenvolvendo uma nova
versão que tinha o mercado brasileiro como
alvo. A princípio, o processo de conversão
parecia simples: bastava encontrar todas as ocorrências
de "ficheiro", substituí-las por "arquivo"
e fazer o mesmo com as demais. As duas palavras são
a tradução do termo "file" e poderiam
ser facilmente substituídas uma pela outra.
Entretanto, este não era um caso de se trocar
seis por meia dúzia. As diretrizes de localização,
estruturas gramáticas e estilos não
eram nem um pouco semelhantes. A estória do
concorrente europeu foi suficiente para dissuadir
o cliente de utilizar o material que havia sido traduzido
para o português europeu e eles finalmente concordaram
em criar uma nova memória de tradução
do zero. Ao reconhecerem, sabiamente, que seus clientes
brasileiros mereciam um produto que de fato "falasse
a sua língua", acrescentaram à sua carteira
de clientes empresas que tem apresentado um histórico
de sucesso no Brasil como a PepsiCo, Michelin, Philips,
Unilever e o Metrô de São Paulo.
Se você estiver procurando diferenças entre o português brasileiro
e europeu, poderá encontrar muitas informações
no site de Ray Vogensen, em http://www.portcult.com/10.LANG3.htm. Apesar
da coleção de fatos interessantes e
da extensa lista de sites correlatos, é difícil
entender por que Vogensen usa o termo "português
continental" em contrapartida à variante falada
no Brasil. Embora a Europa não seja mais considerada
"O Continente", a história deve ter influenciado
a sua escolha, e talvez ele não tenha se dado
conta de que "português ibérico" seria
uma escolha mais neutra e um termo mais relevante
para os dias de hoje.
E por falar em história, o som chiado nas palavras que terminam em "s",
característico dos cariocas, foi trazido de
Lisboa quando a Corte foi transferida para a colônia
sul-americana. Entretanto, nos últimos 20 anos,
o cenário mudou drasticamente: o sotaque da
antiga colônia invadiu as telas de TV, à
medida que as novelas brasileiras passaram a dominar
os programas populares da televisão portuguese.
Para falar a verdade, a ex-colônia, que se tornou
a capital do Império Português devido
a uma seqüência de eventos no mínimo
peculiar, desempenha hoje um papel mais importante
do que o país que inicialmente a inseriu na
arena mundial.
Só recentemente a Microsoft se deu conta de que, para dar à pátria-mãe
Portugal o devido respeito que ela merece, não
era necessário diminuir a importância
do gigante sul americano d'além-mar. Hoje em
dia, nos produtos Microsoft, as variantes do português
não são mais classificadas como "Standard"
e "Brazilian" [1] , mas vêm seguidas dos respectivos nomes dos países
entre parênteses. Em alguns casos, a história
pode ditar uma padronização, mas em
se tratando da chamada "nova economia", essa decisão
baseia-se na influência e no poder que um determinado
país exerce na economia mundial. Se a definição
"Padrão", por exemplo, fosse usada para diferenciar
o inglês britânico do inglês americano
em um produto estrangeiro que estivesse sendo lançado
nos EUA, as vendas certamente cairiam deste lado do
Atlântico.
COMO ASSIM, PORTUGUÊS? ELES NÃO
FALAM ESPANHOL NA AMÉRICA LATINA?
Diz-se que o Brasil compartilha, com o restante da América Latina, a
história política, o status econômico
e a bagagem cultural. Mas até que ponto isso
é verdade? A transferência da Corte Portuguese
de Lisboa para o Rio de Janeiro em 1808 deu-se apenas
porque Napoleão ameaçava ocupar Portugal.
Os portugueses jamais poderiam imaginar que, ao fazer
isso, estavam definindo as fronteiras de um território
de cerca de 8,5 milhões de quilômetros
quadrados e transformando-o em uma nação
unificada. Ao passo que o antigo império espanhol
dividiu-se em pequenas repúblicas, o Brasil
manteve a sua unidade. Embora não possa ser
dissociado do resto da América Latina, o País
também não deve ser considerado parte
intrínseca desse todo geográfico. Apesar
de a América Hispânica não ser
um conjunto homogêneo de países, todos
os seus povos entendem a mesma língua. Entretanto,
o mesmo não ocorre com as duas variantes do
português: os brasileiros costumam ter dificuldades
para entender o português ibérico falado.
Na verdade, muitas vezes os filmes portugueses são
legendados quando exibidos para o público brasileiro.
Para atingir o mercado latino-americano estrategicamente como um todo, a indústria
de bens de consumo criou uma alternativa que satisfizesse
os mercados brasileiro e hispânico. A melhor
solução do ponto de vista econômico
foi criar embalagens bilíngües, também
encontradas em diversos produtos da União Européia.
De itens de higiene pessoal a barras de chocolate,
hoje uma série de mercadorias apresentam embalagens
com os dois idiomas. O consumidor pode ler "Gel para
afeitar" e "Gel de barbear" nas latas de gel para
barbear e "Control sarro" e "Controle de tártaro"
nos tubos de creme dental. Por isso, independente
do idioma falado pelo freguês, ele saberá
exatamente o que está levando para casa e se
sentirá respeitado como um consumidor com individualidade
cultural e lingüística.
PERSONALIDADES QUE ENGANAM
Recentemente, Robert V. Levine fez um estudo sobre o comportamento humano em
cidades com alta densidade populacional. Ele e um
grupo de colaboradores de 23 países distintos
fizeram cerca de 300 "testes de solidariedade" em
que pessoas fingiam ser cegas, derrubavam canetas
e abordavam transeuntes fingindo ter machucado a perna.
Segundo o estudo, intitulado The Kindness of Strangers
(A bondade de estranhos), publicado no site American
Scientist Online, o povo do Rio de Janeiro é
o que mais provavelmente vai ajudar um estranho nas
situações descritas. Levine também
diz que o psicólogo social Aroldo Rodrigues,
um colega seu da Universidade Estadual da Califórnia,
não ficou surpreso com os resultados. "O termo
simpático", explica Rodrigues, "é muito
importante no Brasil e refere-se a uma série
de qualidades sociais desejáveis: um ser amigável,
legal, agradável e de bom caráter, alguém
cuja companhia é divertida e prazerosa. Os
brasileiros, principalmente os cariocas, gostam muito
de ser considerados pessoas simpáticas". Qualquer
um que já tenha visitado o Rio ou qualquer
outra cidade brasileira poderia dizer o mesmo. Mas
não se deixe enganar! Eles podem recebê-lo
de braços abertos, mas isso não quer
dizer que tenham sido conquistados no longo prazo.
Por trás de cada "Bem-vindo" pode haver uma
mensagem subjacente e velada, do tipo "Mas, vem cá,
vai ficar quanto tempo mesmo?" A menos que você
se torne um verdadeiro carioca, não espere
que a cidade o considere um filho adotivo. A má
notícia é que o mesmo se aplica aos
produtos e serviços estrangeiros no Brasil.
Quando as cadeias Pizza Hut e Subway vieram para o Brasil há alguns anos,
muitas pessoas ficaram animadas com a possibilidade
de finalmente terem um grupo de cadeias estrangeiras
de fast-food só para si. Inicialmente, o investimento
parecia promissor e os primeiros restaurantes abertos
em São Paulo logo abriram espaço para
filiais no Rio de Janeiro e em outras cidades. Essas
cadeias ofereciam aos brasileiros a típica
comida americana e seu objetivo era atingir o sucesso
de que gozava o McDonald's desde o final da década
de 70, quando foi inaugurado em Copacabana. Entretanto,
alguma coisa não correu como era esperado.
Alguns anos mais tarde, Pizza Hut e Subway foram forçadas
a fechar algumas portas e voltar para casa com um
amargo sabor de derrota. O motivo era claro: nenhuma
das duas falava a língua do seu público-alvo.
Em São Paulo, por exemplo, os imigrantes italianos dominam há
muito tempo o gosto local por massas e pizzas. Sendo
assim, quando o Pizza Hut trouxe a sua famosa massa
grossa para o Brasil, a variação, tão
popular nos Estados Unidos, foi logo fadada ao fracasso.
Do mesmo modo, quando o Subway chegou pela primeira
vez, a sanduicheria ameaçou dominar o reino
que o McDonald's havia estabelecido em 1979. Mais
uma vez, sem comunicações formais ou
pesquisas de marketing para saber o que os brasileiros
queriam, a cadeia também acabou se transformando
em um fracasso retumbante. A estratégia do
McDonald's, por outro lado, foi bem sucedida porque,
em vez de simplesmente importar hambúrgueres
e batatas fritas americanas, conduziu pesquisas abrangentes
para descobrir quais variações a exigente
população brasileira poderia gostar.
O sanduíche Cheddar McMelt, por exemplo, foi
criado especificamente para a população
local, e o guaraná, um acréscimo ao
cardápio do McDonald's, só é
vendido nas lanchonetes brasileiras. Se o Pizza Hut
e o Subway tivessem ouvido seus clientes, se tivessem
tentado "falar a língua deles", talvez tivessem
escapado do fiasco tropical.
O Brasil tem um enorme mercado de consumo que inclui uma grande variedade de
classes sociais e diversas graus de escolaridade.
Recentemente, o governo iniciou uma campanha fervorosa
para erradicar o analfabetismo até 2006, e
o número de pessoas com diploma universitário
aumenta a cada dia. Isso quer dizer que os consumidores
brasileiros serão cada vez mais exigentes no
que diz respeito ao aspecto textual dos produtos e
serviços a eles apresentados ou por eles adquiridos.
Deste modo, as exigências lingüísticas
para se comunicar com esse público serão
inevitavelmente mais específicas e rigorosas.
Isso, aliado à "xenofobia camuflada" que descrevemos
anteriormente, tornará ainda mais difícil
a aceitação e adoção de
marcas estrangeiras pelo povo brasileiro. É
claro que alguém poderia se esforçar
para adquirir esses conhecimentos, mas o esforço
é contra-producente ou pouco viável
em empreendimentos de curto ou médio prazo.
Uma alternativa mais confiável e rápida
é encontrar um parceiro local com as habilidades
lingüísticas necessárias e conhecedor
das facetas intrínsecas ao local que se pretende
conquistar.
Com isso em mente, pode-se evitar os riscos de investir muito dinheiro na localização
de um produto de TI que competirá com um concorrente
estrangeiro ou será desconsiderado por causa
de um novo adversário nativo que vem ganhando
terreno: a crescente indústria brasileira de
software. O governo brasileiro espera que o mercado
de software e os serviços de informática
atinjam 9,2 bilhões de dólares este
ano. Além disso, a posição promissora
do Brasil na indústria mundial de informática
pode ser explicada por sua inclusão no recém-criado
grupo BRIC. Citando Jonathan Murray, vice-presidente
de vendas de Contas Globais da Microsoft, "Precisamos
concentrar nossos recursos nos locais em que nossos
clientes vão gerar seu crescimento nos próximos
10 anos: no grupo BRIC, formado por Brasil, Rússia,
Índia e China".
Quando descobriram o Brasil, os portugueses conseguiram negociar com os índios
fazendo escambo do valioso pau-brasil por espelhos
e outros adereços de baixo custo. Mas o primeiro
contato entre os dois grupos não se traduziu
em relações econômicas bem sucedidas,
já que a recepção calorosa inicial
não se transformou em aceitação
plena da escravidão. Podemos encontrar as raízes
da personalidade "xenofóbica camuflada" dos
brasileiros há cinco séculos, mas se
você tiver planos de entrar no país e
vender, seja bugigangas baratas ou produtos tecnológicos
altamente sofisticados, tente tirar proveito da lição
deixada pelos missionários jesuítas.
Esses homens determinados, que marcharam por terras
inóspitas em nome de seu Deus, entenderam que
para "salvar" almas tinham que aprender primeiro o
tupi-guarani, idioma falado pelos brasileiros nativos.
Pobres jesuítas! Não havia agências
de tradução no Brasil naquela época
para ajudá-los nessa empreitada. Por outro
lado, as multinacionais de hoje têm tudo à
sua disposição: recursos modernos de
localização e uma população
ávida por comprar seus produtos. Um país
bem legal, né? Mas se você gostou, em
vez de levá-lo para casa, tente tirar o máximo
proveito dele.
[1] A versão localizada dos produtos já usava a distinção
"Português (Portugal)" e "Português (brasileiro)".
This
article was originally published in the November
2003 edition of MultiLingual Computing Magazine
- www.MultiLingual.com
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