Senhores
jurados,
Vocês
ouviram os depoimentos. Não resumirei as
provas dos fatos porque seria perda de tempo.
Elas são mais do que eloqüentes. Mas
quero alertá-los sobre um ponto, ou seja,
como que freqüentemente as testemunhas usaram
a expressão “como se”: “eles agiram como
se não houvesse alternativa”, “como se
não houvessem fatos possíveis de
serem controlados”, “como se nossa proposta fosse
ridícula”, “como se a língua
concernente não existisse”, etc... etc...
O retorno a esta palavra, enfatiza, como persistentemente
os acusados negligenciaram a realidade. Eles supostamente
pertencem a uma elite política, econômica,
cultural, universitária ou social do mundo;
eles tinham cargos de grande prestígio
e responsabilidade; as decisões deles influíram
na vida de todos os habitantes do planeta, entretanto
eles agiram sem sentimento de responsabilidade,
como se fossem alunos do jardim de infância.
E agora – vocês os ouviram – eles podem
se defender dizendo: “Nós não
sabíamos”, “Nós não
podíamos imaginar que era assim”.
Como
era possível este desconhecimento? Será
que eles nunca viram viajantes em situações
desagradáveis por não poderem se
comunicar com os habitantes locais? Será
que eles não notaram que o investimento
de nossa comunidade mundial no ensino de línguas
era gigante, mas os resultados miseráveis?
Quando eles participavam de reuniões internacionais
eles não tinham consciência que intérpretes
estavam nos guinches, que a voz ouvida não
era a do orador, que o uso simultâneo de
tantas línguas necessariamente custava
muitíssimo? Será que eles não
sabiam que por todo o mundo milhões e milhões
de crianças estressam seus cérebros
tentando dominar a língua inglesa, a qual
se mostra tão esquiva, que em média,
após 7 anos de aprendizado com quatro horas
por semana, de cada 100 alunos, apenas um é
capaz de eficientemente usá-la? Será
que eles não leram nos jornais sobre os
aviões que sofreram acidente pela
não comunicação lingüística
entre a torre de comando e o piloto?. Alguns deles
têm o inglês como língua materna.
Será que eles nunca se sentiram superiores
em relação aos estrangeiros com
os quais eles falavam, e será que eles
nunca se perguntaram se isto era normal e justo?
Outros não tinham o inglês como língua
materna. Será que estes nunca se sentiram
inferiores aos seus colegas de língua inglesa?
Será que estes nunca sentiam aborrecidos
numa discussão, porque as palavras necessárias
não lhes vinham na memória, enquanto
que os outros podiam explorar todas as riquezas
de sua língua materna? Como é possível
viver em nossa sociedade e não perceber
que o problema lingüistico existe?
INDIFERENÇA ESCANDALOSA
Vamos
supor algo impossível e imagine que eles
conseguiram viver uma vida internacional, nunca
reconhecendo os aspectos negativos da realidade
lingüistica. Em seus níveis na sociedade,
será que eles poderiam competentemente
ter responsabilidades em escala mundial, não
sabendo como a comunicação funciona?
Era o dever deles saber, ainda mais porque eles
tinham o dinheiro e os empregados para coletar
informações, para organizar pesquisas,
se necessário. O motivo pelo qual eles
não sabiam é que o tema não
os interessava. E isto não os interessava
por falta de compaixão: eles não
eram capazes de fremir com o sofrimento; cumplicidade
com o semelhante não havia neles. Com uma
indiferença escandalosa eles ignoravam
a sorte de milhares de refugiados e
trabalhadores estrangeiros , onde a incapacidade
de se entenderem, pela falta de uma língua
comum, era a fonte de injustiça e miséria
psicológica, e até de morte. Vocês
ouviram as testemunhas. Não
vai ser fácil esquecer o caso do hospital
alemão, onde 50 por cento dos pacientes
morreram após enxerto, apenas porque, por
falta de uma língua comum com os empregados
do hospital e enfermeiros, eles não entenderam
as instruções dadas para eles. Estas
realidades, nossas “elites” ignoraram. Se a polícia
tratou injustamente um estrangeiro porque este
não conseguia fazer se entender, isto não
incomodou a elite. Se o diretor de uma pequena
empresa não conseguiu receber para a sua
companhia um contrato importante porque o seu
nível de inglês não era adequado
para o tratado, por que isto as perturbaria? Se
o dinheiro muito importante para toda as espécies
de objetivos sociais foi abundantemente jogado
no abismo profundo da comunicação
lingüística burocrática, sobre
isto eles assobiaram. E no entanto! Será
que não era uma de suas responsabilidades
escolher humanamente, o que fazer com o dinheiro
recebido dos cidadãos?
Pegarei
apenas um exemplo, entre os muitos dos quais poderia
citar. Enquanto os acusados tiveram o poder ,
muitas crianças africanas morreram de desidratação:
esta falta de água no organismo foi tão
estrema que as crianças não podiam
produzir lágrimas quando elas deviam chorar.
Curar uma criança custava apenas 5 centavos
de dólar. Mas não foi possível
encontrar dinheiro para salvar crianças
que foram lançadas neste horror. Não
é estranho que ao mesmo tempo, a União
Européia diariamente gastava milhões
de dólares para traduzir a carga diária
de 3 milhões de palavras?
Quando
os acusados foram informados sobre as tragédias
diárias , por exemplo sobre a fome mundial,
com uma compaixão aparente, eles balançaram
a cabeça a se lamentarem sobre a falta
de dinheiro, mas fizeram isto sem sentir algo
errado nestas organizações que traduzem
milhões de palavras ao custo de 2 dólares
por palavra. Que elite é esta? Será
que não é evidente até mesmo
para uma pessoa simples que aquilo que se gasta
com um objetivo não é disponível
para outro? E que, como resultado, definir prioridades
convenientes é o dever moral mais sério?
Apesar
disto, em todas as organizações
internacionais, e delas existem muitas, eles nunca
exitaram em atribuir gigantesca quantidade
de dinheiro aos serviços lingüisticos.
Aliás, nunca veio na cabeça deles
a idéia de efetivar estudos objetivos
sobre quanto os multifacetários problemas
lingüisticos custam para a sociedade mundial
e quais as maneiras de resolvê-los. A sociedade
poderia ser lingüisticamente melhor organizada?
Eis uma pergunta que eles nunca fizeram para si.
“Nós fizemos aquilo que era possível.
Não havia outra solução”,
eles afirmam.
SOLUÇÃO EXISTIA HÁ TEMPOS
Será
verdade que não existia outra solução?
Mas o Esperanto existia! Ele já era usado
há um século. Para aqueles que mostrara-se
suficientemente sábios para apropriá-lo,
ele proporcionou comunicação admirável
sem obrigar a investir nem mesmo um vintém
em serviços lingüísticos, sem
discriminação entre os povos e após
um investimento de tempo e dedicação
moderados (já era sabido que 6 meses de
Esperanto conduzia a um nível de comunicação
igual ao que se gasta para seis anos de
inglês). Mas para os distintos membros de
nossa “elite”, esta alternativa, esta maneira
de resolver o problema lingüistico com uma
relação custo-benefício mais
favorável, simplesmente não existia.
Quando alguém chamava a atenção
sobre ele - e isto acontecia com freqüência;
as provas estão em vosso processo – eles
sistematicamente impunham uma série de
argumentos, sempre os mesmos, sempre excludentes,
nunca tendo controlado tal validade.
“O
Esperanto não funciona”, eles diziam, enquanto
que era fácil participar de uma reunião
internacional ou um Congresso em Esperanto para
descobrir que este instrumento de comunicação
lingüistica funciona melhor que qualquer
outro sistema rival, seja o inglês, seja
a tradução simultânea, ou
outro qualquer.
“Ele
é artificial”, eles diziam, se recusando
a, quando convidados, verem crianças brincando
e rindo em Esperanto com uma tal espontaneidade
de expressão, que a afirmação
deles se revelaria logo preconceituosa, e não
achando estranho o fato de se falar em microfones
e escutar por fones de ouvido a voz de um outro,
que não o falante que, (vocês
reconhecerão) não se impõe
como uma maneira natural de se comunicar.
“Ele
não tem cultura”, eles afirmavam, nunca
tendo lido uma linha de um poema em Esperanto,
não sabendo nada sobre o desenvolvimento
do teatro em Esperanto, ou literatura, nunca
tendo ouvido uma palestra nesta língua.
“O
Esperanto é rígido e pobre de expressão”,
eles repetiam, nunca tendo o submetido a uma análise
lingüistica, o que os obrigaria a concluir
que ele é mais flexível e rico em
expressões, graças a plena liberdade
de combinar elementos do que muitas línguas
de prestígio.
“Ele
não é uma língua viva”, eles
argumentavam não sabendo nada sobre a comunidade
que diariamente o usa, e nunca se perguntando,
quais são os critérios de
vida lingüística, e se o Esperanto
responde a eles ou não.
“Seria
lamentável se os povos tivessem que abrir
mão de suas próprias línguas
para apropriar um novo como este” eles diziam,
não se interessando pelo fato que o Esperanto
nunca teve como objetivo substituir as outras
línguas, mas era simplesmente um recurso
prático de superar a barreira lingüistica,
assim como o latim na Europa da Idade Média,
e ignorando as informações sobre
mortes de línguas (morria uma língua
a cada semana nos anos 2000) causadas pela destruição
eficiente de algumas assim chamadas “grandes”
línguas, principalmente a língua
inglesa, a qual muitos socio-lingüistas chamavam
de “língua assassina”.
Felizmente ocorreu uma revolução
lingüística
Não
haveria sentido insistir sobre estes preconceitos.
Vocês sabem o quanto eles valem. 25 anos
depois que os cidadãos se rebelaram
e a revolução lingüistica ocorreu,
vocês estão vendo quanto o mundo
evoluiu para uma melhor condição
de vida. Vocês agora podem viajar pelo mundo
sem se deparar com o problema de comunicação.
As organizações internacionais não
devem mais enfrentar os custos astronômicos
de seus serviços lingüisticos, de
maneira que gigantescos recursos financeiros ficaram
disponíveis para projetos sérios
e substanciais. Jovens de todos os lugares do
mundo, depois do exame do curso básico
de Esperanto estudam outras línguas
escolhidas pelos seus próprios gostos ou
interesses, o que acelera a diversidade de pensamento
de toda nossa sociedade (fator de fecundação
de idéias), ao mesmo tempo favorecendo
uma compreensão autêntica e recíproca.
Os
muitos efeitos negativos do monopólio do
idioma inglês sobre a vida cultural de muitos
povos ( na maioria das escolas do mundo era praticamente
impossível estudar outras línguas
estrangeiras) cada vez mais desaparecem. Refugiados
e trabalhadores estrangeiros agora são
entendidos, para onde quer que eles vão.
Especialistas participantes de discussões
internacionais são escolhidos por suas
competências, e não mais pelas suas
capacidades de usarem o inglês, que excluía
muitos, porque como vocês sabem, muitas
pessoas talentosas em matemática e tecnologia,
só com muito esforço conseguem aprender
outras línguas.
Na
Inglaterra, EUA, e outros países de língua
inglesa, estudantes descobrem culturas estrangeiras
sob um novo ponto de vista, e o dever de aprender
um novo idioma rigoroso, mas fácil e psicologicamente
mais aceitável, tem um efeito positivo
para uma abertura para o mundo e para seus desenvolvimentos
culturais e intelectuais. Na Índia, o conflito
entre as partes, de um lado os favoráveis
ao inglês e de outro lado do hindi parou
de existir, e mesma sorte tiveram os conflitos
lingüisticos na Bélgica, República
dos Camarões, Nigéria e muitos outros
países.
Na
verdade, a humanidade deve muitíssimo àqueles
que fizeram pressão aos países,
para que estes organizassem cursos de Esperanto
pelo mundo todo. Mas devemos um agradecimento
especial aos secretários de governo que
insistentemente se esforçaram para
que vigorasse a primeira Declaração,
que oficialmente restabeleceu a verdade sobre
o Esperanto. Por causa dela, nossa língua
internacional, pela primeira vez foi vista segundo
uma perspectiva justa. Quando o público
tomou conhecimento que durante décadas
foi enganado, a língua começou
a fazer sucesso, por isto ela rapidamente foi
divulgada até mesmo antes que seu ensino
geral fosse organizado.
GRAVE RESPONSABILIDADE
Se
achei útil citar algumas enormes vantagens,
que agora todos nós gozamos pela mudança
de atitude em relação ao Esperanto,
meu objetivo é acentuar a responsabilidade
dos acusados pelo fato que esta mudança
ocorreu tão tarde. Já em 1920 a
Liga das Nações realizou uma pesquisa
objetiva sobre o tema e recomendou aos Estados-membros
em todo o mundo organizarem o ensino do Esperanto,
para que ele se tornasse a Segunda língua
de todos. A Liga percebeu isto como a melhor maneira
para que se tivesse efetivado uma comunicação
igualitária e internacional, que
garantisse ao mesmo tempo a sobrevivência
e prosperidade de todas as línguas e culturas.
Mas eles ignoraram a recomendação
da Liga. As boas qualidades do Esperanto sempre
foram visíveis a qualquer um que fosse
intelectualmente honesto e de interesse claro.
Já
nos anos 1930, a literatura em Esperanto e o uso
da língua em encontros internacionais estava
tão desenvolvido, que negar seu valor cultural
e humano era possível apenas se resignasse
a própria honestidade ou o dever de ser
objetivo. Então, durante décadas,
a “elite” se absteve. Quando alguém fazia
uma proposta com o objetivo de acelerar o uso
do Esperanto, os membros desta assim chamada elite
reagia de maneira totalmente contrária
e sem basear suas respostas em considerações
objetivas. Nunca eles tinham a idéia que
eles deveriam provar suas afirmações.
Que o Esperanto valia nada, isto eles consideravam
evidente. Eis porque eles são dignos de
serem condenados. Este processo deve ser útil
como exemplo para mostrar ao povo do mundo, que
a falta de um sistema democrático, a eliminação
da objetividade, a recusa de controlar os fatos,
a decisão de rejeitar uma proposta antes
de estudá-la, a indiferença diante
do sofrimento e a negligência com referência
às prioridades baseadas em considerações
éticas não podem ficar na impunidade.
A
sociedade tem direitos. O direito à comunicação
é um direito que a gente deve respeitar
seriamente, assim como o direito à um tratamento
igualitário. Quando os acusados dominavam
a vida social, eles manipularam a opinião
pública de uma maneira sutil, impondo nas
mentes das pessoas uma série de equívocos,
que em grande parte contribuíram para que
a língua internacional neutra Esperanto
tenha sido introduzida na sociedade de uma maneira
tardia.
À
todos vocês atualmente, é evidente
que pessoas colocadas em situação
de inferioridade, porque elas não podiam
se exprimir numa língua estrangeira, eram
vítimas de um sistema de comunicação
mundial. Mas a assim chamada elite obrigava a
olhar estas pessoas como culpadas. Culpadas pela
tendência de não estudarem, por preguiça
ou inferioridade cerebral. “ Se eles não
são capazes de se comunicarem, os culpados
são eles mesmos: era obrigação
deles estudarem línguas”, eles insinuavam,
nunca perguntando a si próprios se dominar
uma outra língua nacional é possível
para todos, e se não existe uma alternativa
mais propícia para a ordem lingüística
mundial, ou melhor dizendo: desordem.
Não podemos absolvê-los
Senhores,
nada poderá inocentar os acusados.
Eles
vivem num século no qual na justiça,
assim como na ciência, nenhuma conclusão
é tirada antes que os fatos sejam analisados.
À despeito deste princípio, eles
nunca se integraram sobre os fatos relativos ao
Esperanto em seus raciocínios, e eles repetidamente
concluíam que não havia sentido
buscar uma sistema melhor de comunicação
entre os povos do que o caótico e desigual
sistema que reinava em todo lugar.
Eles
vivem num século no qual quando muitas
possibilidades se apresentam, devem-se compará-las
para se poder escolher as propostas que apresentam
as melhores vantagens e as que têm menos
desvantagens. Vocês viram estas pessoas.
Perguntados quando eles compararam na prática
segundo uma série de critérios pré
definidos os diversos sistemas de comunicação
internacional, inclusive o Esperanto, eles vergonhosamente
olhavam para o chão. “Sobre isto a gente
nunca pensou”, murmurou um.. Mas eles confessaram
que em outros campos, quando eles tiveram que
usar o dinheiro dos que pagavam impostos ou dos
acionistas, eles lançavam editais para
ofertas ou propostas, ou de outra maneira, consideravam
uma série de possibilidades para compará-las
e escolher a melhor.
Eles
vivem em um século em que a discriminação
é ilegal. Mas suas atitudes em relação
às pessoas que tentavam torná-los
conscientes sobre as potencialidades do
Esperanto, e sobre sua realidade, freqüentemente
eram discriminatórias; eles logo despachavam
estas pessoas sem as escutá-las, sem ler
ou considerar de uma maneira adequada seus documentos.
Assim aconteceu de uma maneira notável
como vocês descobriram ouvindo as testemunhas,
junto à União Européia, mas
muitos outros exemplos poderíamos apresentar
à vocês. Nenhum fato que os possa
absolvê-los existem em favor deles. Até
agora há uma dúvida se eles têm
consciência sobre a amplitude de frustrações,
dos sofrimentos, dos inúteis desperdícios
de tempo e energia, das perdas, do desperdício
não aceitável e dos sofrimentos
que foram causados por causa da ignorância
sobre as realidades lingüísticas deles.
Todos os aspectos negativos da desorganização
lingüistica, os quais evitar seria tão
fácil, como prova nossa atual maneira de
viver, eles olhavam como inevitável, assim
como a escravidão, durante séculos
era vista como algo normal, de um tal modo, que
até mesmo os escravos, viam como um aspecto
inevitável da vida. Durante muitas décadas,
as inúmeras vítimas da desordem
lingüistica mundial eram mentalmente manipuladas
para que elas acreditassem que para tal situação
não havia alternativa. Isto é
imperdoável, haja visto o nível
intelectual dos responsáveis, assim como
se levarmos em consideração seus
treinamentos, científico e político,
que necessariamente lhes educaram sobre
a necessidade de serem objetivos e controlarem
os fatos.
Senhores
jurados , vocês devem para a justiça
e também paras as gerações
futuras uma declaração clara e contundente
que aquelas pessoas foram culpadas. O presidente
do tribunal agora os orientará sobre como...
(aqui o texto se interrompe abruptamente)
Traduzido por João Manoel Aguilera Júnior