Gerência de projetos: arte ou disciplina?
By
André Barcaui,
MsC, PMP is a consultant and management coach,
Brazil
bbbrothers[at]bbbrothers.com.br
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English
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O
equilíbrio necessário para se tornar
um excelente gerente de projetos
Atualmente muito se fala sobre gerência de projetos.
Tanto em meio acadêmico quanto profissional. Mas
até que ponto a atividade de gerenciar um time
em direção a um objetivo específico
com prazo determinado pode ser considerada uma disciplina?
E se assim não for, como almejar ensiná-la
através de cursos de aperfeiçoamento para
gerentes ou certificações? Que variável
acaba sendo mais importante na condução
de um projeto: o conhecimento técnico e metodológico
ou as chamadas habilidades interpessoais de quem o conduz?
Em
outras palavras, é preferível um gerente
com profundos conhecimentos técnicos, mas com
pouca experiência e vivência na gerência
de pessoas? Ou seria melhor considerar um gerente com
pouco ou até nenhum conhecimento técnico,
mas que dominasse como ninguém o lado interpessoal
e de relacionamento de equipes? Ou talvez devesse existir
um meio termo, como um gerente atuante em todas as dimensões.
Mas se assim for, qual a composição ideal
de cada competência? Deveria esta composição
variar com o tipo de projeto que estaria sendo gerenciado?
Projetos X Pessoas
Independente
do segmento de indústria ou ramo de negócio,
a atividade de gerenciar projetos vem crescendo de
maneira exponencial no mercado de trabalho. O interesse
pela atividade assumiu proporções significativas
no mundo corporativo, principalmente para que as empresas
possam atender melhor a necessidade de se produzir
cada vez melhor, mais rápido, mais barato,
com menos recursos e com a devida qualidade. Este
interesse se confirma através da grande procura
pela carreira de gerência de projetos e pela
quantidade de investimento em treinamentos, consultorias
e ferramentas sendo feito atualmente.
No
livro Gerente também é Gente: Um Romance
sobre Gerência de Projetos, o personagem
principal da história, recém-promovido
a gerente, tem que enfrentar três diferentes projetos,
com diferentes níveis de complexidade ao longo
de sua saga. Para tanto, conta com a ajuda de um gerente
mais experiente, que acaba por ensiná-lo que
gerenciar projetos é muito mais do que somente
o uso de técnicas e ferramentas. Para obtenção
do sucesso, é preciso ser um bom conhecedor de
pessoas, e o protagonista acaba aprendendo isso ao mesmo
tempo em que tem que administrar sua vida profissional
e pessoal. Com base nessa visão, o livro tenta
apresentar uma visão menos limitada a métodos
e processos, sendo mais abrangente e considerando também
o lado humano do gerente de projetos, inclusive abordando
pontos como: conflitos pessoais, inseguranças
e medos inerentes ao cargo.
Na vida real, o gerente, líder, ou coordenador
de projetos, acaba por desempenhar um papel de fundamental
importância para o sucesso dos projetos de uma
organização. Se considerarmos que estes
projetos representam o meio para a realização
da estratégia de negócios da empresa,
a importância de um bom gerente no comando acaba
constituindo fator crítico para este sucesso.
No entanto, as características que determinam
um gerente de projetos de sucesso nem sempre são
tão facilmente mapeáveis.
Historicamente,
o conhecimento técnico, do negócio e a
própria formação acadêmica
eram considerados pontos fundamentais para a boa escolha
de um gerente. Mais recentemente, outras características
passaram a ser consideradas e valorizadas. Habilidades
antes consideradas como desejáveis, passam a
assumir um outro grau de importância. São
elas: relacionamento interpessoal, gestão de
conflitos, inteligência emocional, liderança,
comunicação, negociação,
coaching etc. Todas estas características
somadas certamente representam um peso importante no
perfil de um gerente de sucesso. Mas não se tem
ao certo a medida de quanto este conjunto de habilidades
de gerenciamento significa na composição
deste perfil. Principalmente em relação
a outras competências consideradas clássicas
e mais ligadas à disciplina como: uso da metodologia,
disciplina e conhecimento técnico.
O
próprio PMI (Project Management Institute)
na mais recente versão do PMBoK (Project Management
Body of Knowledge), passou a valorizar de maneira
mais evidente algumas características ligadas
ao direcionamento da equipe e gerência de stakeholders.
Algumas das modificações feitas em suas
áreas de conhecimento sugerem uma maior “humanização”
da gerência de projetos e não somente
competências técnicas do gerente enquanto
planejador, controlador, executor e responsável
geral pelo projeto. Este movimento, apesar de legítimo,
acaba por provocar interessantes discussões
sobre até que ponto as habilidades de gerenciamento,
considerada por muitos autores como “a arte
de gerenciar” pode ser ainda mais fundamental
do que o próprio conhecimento técnico
em si, aliado à utilização de
uma forte metodologia de gerenciamento. Como exemplo
desta visão, poderíamos representar
a gerência de projetos através da analogia
com um iceberg conforme a figura a seguir:
|
Representação
gráfica da Gerência de Projetos |
Práticas
de gerenciamento
De
acordo com o guia PMBoK, a relação entre
as diversas práticas de gerenciamento poderia
ser representada através de três dimensões
interdisciplinares. A primeira delas representaria
práticas e conhecimentos geralmente aceitos
no campo da gerência de projetos, envolvendo
fundamentalmente conhecimentos relativos à
metodologia de gerência, ferramentas, técnicas
e conceitos ligados à área. Outra dimensão
seria das práticas ligadas à área
de aplicação específica em que
o projeto estaria situado. Normalmente descritas através
de departamentos funcionais, elementos técnicos,
especializações, formações
técnicas e/ou grupos de indústria. A
terceira e última dimensão compreenderia
as chamadas práticas de gerência em geral,
representadas geralmente através de planejamento,
da montagem e gestão de equipes, da organização,
da tomada de decisão, entre outras competências.
Esta é a dimensão que estaria associada
à “arte” de gerenciar. Assim chamada
muito em função da experiência
e vivência particular de cada gerente. Funcionaria
inclusive como um diferencial do profissional. O domínio
de cada uma destas áreas representaria um determinado
grau de importância na condução
de projetos de sucesso. Apesar de não serem
necessariamente proporcionais entre si, estas três
dimensões de praticas gerenciais sofrem algum
tipo de sobreposição conforme apresentado
abaixo:
|
Relacionamento da Gerência de Projetos com as demais práticas gerenciais
Fonte: PMBoK Guide, 3ª versão |
Também
fica muito difícil generalizar uma opinião
para todo e qualquer tipo de projeto. Em função
disso, define-se aqui uma tipologia simples, uma vez
que o universo de possibilidades é muito grande
(em função da complexidade, do valor,
dos riscos e de diversas outras variáveis associadas
à gerência de projetos). Se esta enorme
abrangência de tipos não fosse de alguma
forma segmentada, correríamos o risco de tentar
obter uma explicação única para
cenários múltiplos. A tipologia adotada
segue um modelo baseado na complexidade e no tamanho
de cada projeto. Por complexidade entende-se o grau
de dificuldade técnica, de inovação,
política, circunstancial, ou uma combinação
destas variáveis a que o projeto possa estar
exposto. Por tamanho pretende-se representar variáveis
mais lineares como valor, tempo de projeto e risco
associado. Desta forma, foi produzido o gráfico
a seguir, que representa os diversos tipos de projetos
em quatro quadrantes distintos, onde:
|
Q1= Baixo Tamanho x Pouca Complexidade;
Q2= Baixo Tamanho x Alta Complexidade;
Q3= Tamanho Elevado x Alta Complexidade;
Q4= Tamanho Elevado x Baixa Complexidade.
|
Quadrantes para classificação de projetos |
A
vitória da disciplina
É
necessário também definir o que se considera
um projeto de sucesso. Estaríamos falando apenas
da definição clássica envolvendo:
escopo, tempo, custo, qualidade e satisfação
do cliente? Ou seria necessário considerar
também a moral da equipe e de todos os demais
stakeholders? Vale destacar que existem diversas
outras definições de sucesso que também
poderiam compor este conjunto de métricas.
Para alguns autores, por exemplo, o sucesso deveria
ser até considerado situacional, uma vez que
dependeria também de quem analisa os resultados
e de quando os analisa.
Tomando por base a definição puramente
acadêmica de sucesso, a disciplina impera sobre
a “arte” na medida em que planeja, organiza
e controla em direção aos objetivos
do projeto. Além disso, em determinados ambientes
e segmentos de projeto, principalmente relativos aos
quadrantes 1 e 2, fica quase impossível não
se ter qualquer tipo de conhecimento técnico,
dado que o próprio time acaba por demandar
este tipo de liderança do gerente. A linguagem,
os jargões utilizados e até mesmo as
gírias, muitas vezes ajudam na construção
da credibilidade e da opinião que o time tem
sobre seu líder.
Apesar
de difícil generalização, este
tipo de constatação é válido
para determinados segmentos da indústria, para
projetos com pequena duração ou que a
complexidade técnica seja acima da média.
Também varia com o tipo de negócio, grau
de projetização da empresa, e principalmente
em função do nível de maturidade
em gerência de projetos do departamento ou organização
sendo analisado. Existem certas situações
em que o conhecimento técnico, a metodologia
e a própria formação do gerente
acabam por influenciar no sucesso do projeto. Em outras
palavras, a disciplina se faz necessária pela
própria natureza do projeto. Um mínimo
de conhecimento técnico é sempre desejável
e, em alguns casos, imprescindível. Mas qual
seria o percentual de tempo que um gerente de projetos
deveria gastar com preocupações deste
tipo, em relação à estratégia
do projeto e a gerência de stakeholders, por exemplo?
A vitória da arte
Existe
um consenso entre os profissionais da área
de que para saber até que ponto aplicar a disciplina
é preciso muita experiência, bom senso
e outros componentes compondo o que estamos chamando
aqui de “arte”. A disciplina por si só,
principalmente no quadrante 3 (alta complexidade e
tamanho) não se torna obsoleta ou inútil,
mas talvez menos requerida. É claro que o conhecimento
técnico e metodológico continua importante,
mas o tipo de demanda que o gerente de grandes empreendimentos
tem que enfrentar normalmente engloba características
muito mais ligadas a habilidades interpessoais e estratégicas
do que propriamente técnicas.
Uma
possível analogia a ser considerada é
a com os dirigentes de grandes empresas. Necessariamente
não se conhece o detalhe de toda a operação,
mas é possível contar com profissionais
e pessoas abaixo no organograma que possam desempenhar
essa função e orientar em decisões
técnicas que se façam necessárias.
Talvez um gerente com muita habilidade em área
específica, ou muito técnico, possa
até influenciar demais a criatividade do time
ou mesmo errar no foco, porque agora tem que fazer
uso de uma visão mais holística e não
tão detalhista dos processos. Edward P. Youngberg
em seu artigo “MicroManager” (2001) comenta
sobre a tênue linha que divide o controle e
a obsessão em gerência de projetos, abordando,
dentre outras coisas, a preocupação
que o gerente tem que ter com o todo do projeto, e
não com o detalhe das engrenagens. A “arte”
pode ser justamente a resposta para descobrir este
limiar. Onde investir mais tempo, ou em qual área
a preocupação pode e deve ser maior.
Outro ponto muito interessante é a influência
que um gerente tem sobre seu time. São várias
as horas passadas em conjunto. Muitas vezes em detrimento
até mesmo das horas passadas com stakeholders
da vida pessoal do gerente. O que significa
que o grau de confortabilidade do time em relação
ao seu gerente tem que ser alto. De outro modo, o
cotidiano passa a ser um suplício. Não
estaria aí também o valor da chamada
“arte”?
Conclusão
Este
artigo não tem a ousadia de tentar responder
de forma definitiva a questão do que seria
mais importante no perfil de um gerente. Até
porque algumas das características aqui abordadas
só possam ser adquiridas com o tempo e com
a experiência. Mas é interessante observar
como a profissão de gerente de projetos encontra-se
em constante estado de evolução. Faz
parte do perfil do profissional a busca pela atualização
e aperfeiçoamento. Não é possível
ignorar o valor que técnica e a metodologia
possuem em ambientes com demandas cada vez mais complexas.
Porém, também se faz necessário
reconhecer que quem está por trás de
todo e qualquer projeto são pessoas e não
máquinas, conforme explorado de forma lúdica
no romance Gerente também é Gente. Neste
sentido, quanto mais “conhecedor” de pessoas
for o gerente de projetos, maiores serão suas
chances de sucesso. Valendo a pena investir e conhecer
mais sobre as chamadas habilidades interpessoais que
compõe o que chamamos aqui neste artigo de
“arte”. São elas que muitas vezes
podem ser decisivas em situações como
pedidos de aceite, requisições de mudança,
previsão de comportamento de stakeholders,
reuniões, enfim, em tudo que conduz ao sucesso
de um empreendimento.
Artigo
originalmente publicado na Revista MundoPM
– Project Management (www.mundopm.com.br),
edição 09 jun./jul.-2006 p. 30.
André
B. Barcaui, MsC, PMP é Consultor,
Professor de diversos MBAs e Coach Gerencial. É
autor do livro Gerente Também é Gente:
Um Romance sobre Gerência de Projetos pela Ed.
Brasport e co-autor de Gerenciamento de Tempo em Projetos,
pela Ed. FGV Management.
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