Traduzir matéria de Direito é traduzir cultura
By
Daniela Mochny
daniela@arteletra.com.br
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English
Version
Civil Law, Consuetudinário ou Common Law: qual é o seu direito?
O
bom tradutor da área jurídica tem de dominar
não apenas a linguagem jurídica, mas conhecer
a história do continente Europeu e da Inglaterra.
Os dois principais sistemas jurídicos do mundo
ocidental são o sistema jurídico de common
law e o sistema jurídico de civil law.
Nenhuma tradução literal desses termos
seria completa, pois não englobaria todo o significado,
conceito e carga cultural neles contidos em apenas duas
palavras. Portanto, esses termos são simplesmente
conhecidos como sistema jurídico de common
law e sistema jurídico de civil law.
Qual desses sistemas é adotado no Brasil? E por
quê?
Antes
de respondermos a essas perguntas, analisaremo s os
principais aspectos dos dois sistemas. Ao contrário
do que se pensa, civil law não é
Direito Civil. A história desse sistema começa
quando o imperador Justiniano reúne todas as
leis do continente europeu, consolidando-as em um único
código, batizado de Corpus Juris Civilis,
posteriormente conhecido como Civil Law,
Continental Law ou Roman Law. Em países
que adotam o civil law, a legislação
representa a principal fonte do Direito. Os tribunais
fundamentam as sentenças nas disposições
de códigos e leis, a partir dos quais se originam
as soluções de cada caso.
Adotado
por países americanos e de origem anglo-saxônica,
o sistema do common law é o sistema
no qual o costume prevalece sobre o direito escrito.
Os casos de direito (case law) são as
principais fontes do Direito, ou seja, a base da criação
das regras de conduta. Ao contrário do Direito
Romano, o direito norte-americano fundamenta-se mais
nos usos e costumes do que no trabalho dos legisladores.
Contudo, a diferença entre civil law
e common law não é o mero fato
da codificação, e sim a abordagem metodológica
aplicada aos códigos e leis.
E
então, já descobriu qual é o sistema
adotado pelo Brasil? Se ainda tem dúvidas, analise
o mapa abaixo:

Apesar de o sistema jurídico norte-americano
ser o de common law, por razões históricas,
o Direito Comercial norte-americano distanciou-se dessa
tendência. Como resultado do federalismo do país,
cada estado tinha suas próprias leis mercantis,
o que dificultava as atividades comerciais nos EUA.
Graças às leis estaduais uniformes, os
estados foram, aos poucos, sendo unificados no aspecto
comercial. A Lei de Títulos de Crédito,
apresentada em 1896, e a Lei Uniforme Sobre Vendas,
apresentada em 1906 são exemplos de leis uniformes.
No final dos anos 40, a Conferência Nacional de
Representantes sobre Leis Estaduais Uniformes, junto
com o Instituto de Direito Americano começaram
a redigir um novo código abrangente. Ele reunia
todas as leis uniformes anteriores em um único
código – o Código Comercial Uniforme
(U.C.C.) – cuja versão final foi apresentada
em 1957. Por outro lado, o Direito Comercial brasileiro
tem origem em 1808 com a chegada da família real
portuguesa ao Brasil e a abertura dos portos às
nações amigas. De sua origem até
o surgimento do Código Comercial brasileiro,
as atividades comerciais no país eram regidas
pelas leis portuguesas e pelos Códigos Comerciais
da Espanha e da França.
Qual
a relação de toda essa história
do direito com nosso trabalho diário como tradutor?
O aumento do comércio internacional e das sociedades
comerciais internacionais contribuiu para um acréscimo
na procura de traduções de documentos
societários. Entre os diversos tipos de documentos
que surgem no cotidiano do tradutor jurídico,
a maior demanda é pela tradução
de contratos. Quando se traduz um contrato, é
imprescindível conhecer a cultura e a matéria
de direito dos países em questão, visando
entender certas cláusulas que normalmente compõem
um contrato.
Ainda
não existem critérios definidos sobre
como os documentos jurídicos devem ser traduzidos.
Alguns tradutores sustentam que a tradução
jurídica deve preservar a todo custo a informação
do original, mesmo que a clareza e o estilo sejam
comprometidos. Por outro lado, outros profissionais
preferem respeitar o estilo da língua de chegada,
adaptando o documento ao formato padrão do
idioma de destino. Meu conselho para quem está
começando a traduzir documentos jurídicos
é seguir sempre as definições
do cliente, bem como adotar o glossário por
ele estabelecido. Esta regra é especialmente
importante no caso de documentos constitutivos de
sociedades, pois muitas vezes o cliente reluta em
alterar qualquer fórmula já adotada
pela empresa. Assim sendo, se o tradutor pretender
afastar-se da fórmula utilizada, deve apresentar
ao cliente uma boa justificativa. As fontes já
consolidadas como confiáveis e primordiais
nesse tipo de tradução não devem
ser descartadas; entre elas destacam-se o dicionário
jurídico do Plácido e Silva e o Black’s
Law Dictionary.
Destacarei
a seguir algumas dificuldades que encontrei com palavras
cujas traduções dependem do contexto no
qual estão inseridas. Qual seria a tradução
para a palavra “lei”? Três são
as possibilidades: law é a mais conhecida,
seguida por act, e finalmente, o falso cognato
statute (por exemplo, Statute of Fraud
corresponde a “Lei de Fraude”). Em contrapartida,
qual seria a tradução de law?
O primeiro significado que temos em mente seria “lei”.
Essa tradução é utilizada no sentido
estrito da palavra, ou seja, quando se refere a uma
norma, ou seja, a Lei do Divórcio. Quando ela
é precedida de artigo indefinido ou seguida de
“s”, certamente sua tradução
será “lei”. Contudo, no sentido amplo,
law é traduzido como “Direito”,
significando um sistema de princípios. Por sua
vez, a palavra jurisdiction pode ser traduzida
como “jurisdição” (aspecto
geográfico), “competência”
(área para a qual um juízo é competente
para proferir sentença) ou “Estado”
(nação).
Encontrado
indiscriminadamente como tradução do termo
counterclaim, “pedido em contrário”
significa apenas “reconvenção”.
E o que vem a ser uma reconvenção? Consulte
o Dicionário Jurídico do Plácido
e Silva! Alguém advinha o que possa ser uma “Carta
de Conforto”? Não é uma carta enviada
a um amigo quando esse perde um ente querido. Carta
de Conforto é a tradução utilizada
amplamente no mercado para o termo Comfort Letter, cujo
conceito se assemelha ao de “Carta de Abono”
ou “Carta de Recomendação”.
Uma tradução literal e errada foi dada
a esse termo e, infelizmente, ficou consolidada.
Diante
de tantas diferenças, fica muito difícil
traduzir a matéria de direito de forma literal.
Para isso precisamos buscar no estudo do Direito os
conceitos de cada nomenclatura, traduzindo assim a idéia
e não apenas as palavras.
Daniela
Schraider Mochny formou-se em Tradução
e Interpretação pela Universidade Mackenzie,
em 1995, e em Administração de Empresas
pela mesma Universidade, em 1996. Tradutora há
10 anos, há algum tempo começou seus
estudos de tradução jurídica,
aperfeiçoando-se nos cursos do Caldas Law Studies
Center. Quando não está traduzindo,
gosta de mergulhar, nadar ou viajar.
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