A
mudança contínua do inglês: dor
de cabeça para o tradutor
By
Anne Jones,
Puerto Rico
annejones@prtc.net
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English
Version
A
língua inglesa está viva e passa bem.
Só que às vezes ela me faz passar tão
mal...
Além
de enfrentar as mudanças normais de vocabulário
que ocorrem em todos os idiomas devido ao surgimento
de uma extraordinária variedade de objetos
e processos, seja na vida cotidiana (TV por satélite
em partes remotas da China), seja em situações
altamente especializadas (avanços de todo tipo
na biotecnologia), o inglês está sofrendo
alterações no uso que, acredito, constituem
uma verdadeira dor de cabeça para o tradutor.
Sem contar o velho método de consultar o autor,
em geral é possível encontrar o significado
de uma palavra incomum em definições
de glossários ou contextualizações
nos bilhões de sites da Web que se tornaram
acessíveis com os mecanismos de procura. Por
outro lado, o uso é um assunto mais delicado,
tanto que até quando o tradutor tem acesso
ao autor de um determinado documento, a consulta pode
não resultar em unidade traduzível como
uma definição.
O
que eu gostaria de discutir são alguns exemplos
específicos do uso com os quais me deparei
e que me fizeram refletir ao traduzir documentos que
tratavam de procedimentos operacionais comuns da indústria
farmacêutica. Traduzo principalmente ao espanhol,
mas não irei aqui sugerir nenhuma solução
de tradução para qualquer idioma específico
porque meu foco são as dificuldades ao analisar
o inglês, uma tarefa independente da língua
de destino. Especificamente, vou me concentrar em
três tipos de uso que descobri serem preponderantes
e dificultosos: a inversão da categoria das
palavras, a barra colocada entre duas palavras e as
omissões.
Talvez
o tipo mais comentado de conversão da categoria
das palavras seja a verbalização, a
transformação do substantivo em verbo,
também chamada de “verbing” (que
é um exemplo em si do fenômeno). Descobrimos
que as coisas devem ser centrifuged (centrifugadas),
autoclaved (submetidas a autoclave), pipetted
(medidas com pipetas), chromatographed (cromatografadas)
ou filtered (filtradas). Todos esses verbos
se originam de substantivos que descrevem um instrumento
ou processo, e o único termo que não
é normalmente encontrado como verbo em dicionários
comuns é “autoclave”. As verbalizações
deste tipo me parecem naturais; uma transformação
do instrumento ou processo em um verbo faz com que
o idioma fique mais conciso, tornando desnecessário
dizer process in the centrifuge (processar
na centrífuga), sterilize in the autoclave
(esterilizar no autoclave), dispense with the
pipette (distribuir com a pipeta), analyze
using chromatography (analisar com cromatografia),
pass through a filter (passar em um filtro).
 |
Eu
centrifugo; tu centrifugas; eles centrifugam |
O
que não me parece tão natural é
a transformação com base no objeto da
ação, por exemplo, como ocorre com a
palavra “gown” (avental). No trecho
“the associate shall gown” (o assistente
colocará o avental) não significa que
o funcionário realmente colocará o avental,
mas sim a vestimenta higienizada e os acessórios
necessários. Nos documentos que traduzi, o
verbo substituía a expressão “don
the gown” (colocar o avental), na qual
um verbo arcaico é mantido. Embora desconcertante
no início, era justificável. O que realmente
me transtornou foi esta instrução:
“If there is no data, NA it” (Na
ausência de dados, basta NDá-lo). O objetivo
era a pessoa escrever NA (do inglês,
Not Available,
traduzido como “Não
Disponível”) no espaço
destinado aos dados. O objeto da ação
tornou-se o nome da própria ação,
como no caso de “gown”.
Em
todo caso, essas conversões são de uso
constante no inglês, podendo ou não ser
traduzidas diretamente. Talvez seja necessário
determinar o que o instrumento faz, em que consiste
o processo ou o que deve ser feito ao objeto; ou seja,
tudo o que foi mascarado na conversão da categoria
do termo. Pode ser que, em vez de distribuir com a
pipeta, haja aspiração com a pipeta,
por exemplo. O Translation Journal publicou recentemente
um artigo online de grande utilidade elaborado pelos
tradutores Hernandez e Cabrera sobre esse assunto,
disponível no site da Accurapid (http://accurapid.com/journal/31conversion.htm).
Outro
uso que se tornou comum é a colocação
de barra (/) entre duas palavras. A tendência
pode ter se iniciado com o uso de “and/or”
(e/ou), que é quase universalmente condenado.
Não há tradução para “and/or”
porque se trata de uma expressão de significado
insondável. O termo visa à concisão,
ainda que em frases como “quality degradation
and/or bioburden contamination” (degradação
da qualidade e/ou contaminação por materiais
biológicos) o “or” somente já
seria suficiente. Parece-me que parte do problema
da expressão “and/or”
é que a relação entre os elementos
é realmente de natureza hierárquica,
no qual um elemento poderia ser um exemplo de outro.
Se houver contaminação por materiais
biológicos, por definição, há
degradação da qualidade. O que o escritor
pretendia dizer era “degradação
da qualidade como, por exemplo, por contaminação
por materiais biológicos” e não
“degradação da qualidade ou contaminação
por materiais biológicos ou ambos”, a
versão longa de uma frase com “e/ou”.
Como
exemplo de outro campo, apresento este trecho de um
documento da Organização Mundial de
Comércio:
3.
Interpretação de “e/ou”
7.81 As interpretações das partes também
estão em exato contraste entre si com respeito
ao significado de “e/ou” na cláusula
6.2. Conforme disposto acima, de acordo com o Paquistão,
uma indústria doméstica consiste em
fabricantes de (i) produtos assemelhados ou (ii) produtos
diretamente concorrentes ou (iii) ambos os produtos
assemelhados e diretamente concorrentes. Por outro
lado, os Estados Unidos argumentaram que os integrantes
podem identificar uma “indústria doméstica”
como uma empresa que fabrica um produto que seja:
(i) assemelhado mas não diretamente concorrente;
ou (ii) diferente mas diretamente concorrente; ou
(iii) ambos assemelhado e diretamente concorrente.
-WT/DS192/R, 31 de maio de 2001 (01-2567).
Devido a restrições
de espaço, limitarei a discussão ao
parágrafo acima, extraído do site da
OMC sobre a interpretação de “e/ou”.
As conseqüências da falta de significado
da expressão neste caso afetaram um setor importante
do comércio mundial, o mercado do algodão.
Há
também o uso em uma situação
em que os elementos não são subconjuntos
entre si, como na instrução “colocar
em uma mesa e/ou prateleira”. Aqui o problema
é realmente uma impossibilidade física:
não é possível colocar o mesmo
objeto em uma mesa e em uma prateleira ao mesmo tempo.
Poderia fornecer vários outros exemplos, mas
o que estou tentando enfatizar é que o tradutor
enfrenta um problema real, não apenas um subterfúgio
estilístico, como alguns gostariam de classificar
o “problema do e/ou”. O fato de que há
milhões de exemplos de “e/ou” usados
não significa que os usuários estejam
sendo claros.
A
barra passou a ser usada em incontáveis formações
como, por exemplo, “manager/supervisor,”
“purchaser/planner,” “cleaning/sanitizing,”
“transcription/translation.”
Não se pode dizer que a barra indique apenas
uma relação entre as duas palavras:
manager/supervisor
= gerente ou supervisor
purchaser/planner = comprador-planejador
cleaning/sanitizing = limpeza e desinfecção
OU limpeza ou desinfecção dependendo
do contexto...
No
caso de transcription/translation, com referência
à biotecnologia, no entanto, poderemos ver
transcrição/tradução como
uma forma fixa ou uma lexicalização.
Ou seja, a barra como a versão contemporânea
do hífen na criação de termos
compostos. É provável que isso seja
uma conseqüência indesejável de
vermos tantas barras em endereços eletrônicos
e em outros usos associados a computadores. Qualquer
que seja a origem, é mais uma razão
para se recorrer à aspirina.
Se
desejar ler mais sobre a barra, recomendo o artigo
“Slash the Slash”, de Stephen deLooze,
no site da European Medical Writers Association, e
“Use of the Solidus between Words, Symbols,
and Abbreviations” (autor desconhecido), no
site da American Physical Society. Descobri que tentar
entender como e por quê a barra é tão
usada me ajudou a penetrar no texto que estou traduzindo,
e esses artigos são muito úteis para
essa finalidade.
A
causa final da minha dor de cabeça são
as omissões. Onde está o artigo na expressão
“line to permeate” (linha para introdução)
que me diz que permeate é um substantivo
e não um verbo? Como é que eu vou saber
que um “pre integrity test” é um
teste de integridade anterior a um processo ou a uma
etapa? Então, um “aseptic fill”
(enchimento asséptico) não está
preenchendo nada? É um teste feito para verificar
se o nível de assepsia foi mantido? Em “Would
you want to generate a nonconformance” eu pensaria
a princípio que se tratava de criar uma falta
de conformidade. Mas não! A pergunta é
se eu gostaria de elaborar, na verdade, um nonconformance
report (relatório de não-conformidade).
Recebi a explicação de que “temperature
EN” é um dispositivo com um número
de equipamento (Equipment Number) usado para
medir a temperatura. E o engenheiro, exultante, me
explicou que “temperatura não é
substantivo!” Outro exemplo:
Uma
válvula de injeção HPLC é
colocada em linha entre o conector em T e a coluna
para a introdução da amostra... Altera-se
o fluxo da coluna ajustando-se a restrição
do vaso capilar ou variando-se levemente a taxa
de fluxo [partindo] do HPLC.
HPLC
significa “High Pressure Liquid Chromatography”.
Como algo pode “partir” da Cromatografia
a Líquido de Alta Pressão? Obviamente,
é do dispositivo, válvula ou sistema
de HPLC.
Poderia
dar mais exemplos, mas meu objeto é assegurar
aos meus colegas, que serão para sempre chamados
de traidores, que o inglês é como qualquer
outro idioma: uma língua em constante mudança,
cujos falantes farão o que bem entenderem,
apesar dos guias de estilo e da censura dos editores.
Tradutores de textos científicos, se tiverem
sorte, terão acesso a pessoas que poderão
desvendar esses mistérios que mencionei. Espero
que esses comentários sejam úteis aos
que enfrentam esses obstáculos no trabalho.
Anne Jones vive em Porto Rico
desde 1953. Como tradutora free-lance e diretora da
Sygnos Translations, a autora trabalha há bastante
tempo com textos jurídicos e de manufatura,
especialmente na área farmacêutica. Anne
preferiria ganhar a vida traduzindo a poesia de Hjalmar
Flax.
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