Vai que é tua, revisor!
By
Gabriela Castelo Branco,
Brazil
gabrielacastelo@globo.com
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English
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Como
sou fã de futebol, flamenguista que cresceu
vendo o Zico jogar, nunca mais me esqueci deste comentário
que ouvi de uma colega revisora: “revisor é
que nem goleiro: só aparece quando falha”.
De fato, se as discussões sobre a visibilidade
do tradutor e a conscientização sobre
a nossa interação (e intervenção)
com o texto original ainda geram polêmica, imaginem
a (in)visibilidade do revisor como anda.
Assim
como na tradução, em geral os comentários
sobre a revisão são sempre negativos.
Nas poucas vezes em que ouvi o revisor ser mencionado,
no mercado editorial, a questão era uma alteração
indevida, a aplicação de uma regra “que
ninguém usa”, sempre dando um tom “burrocrático”
à atuação do revisor. Talvez
para os adeptos da teoria “falem mal, mas falem
de mim”, isso já seja alguma coisa. Afinal,
de nós, revisores de traduções
nas áreas de tradução técnica
e localização, nunca ouço falarem
nem mal.
E
olha que a chance de a gente engolir frango é
grande. Não que os tradutores sejam tão
ruins quanto a zaga do Flamengo; a questão
é que parece que estamos no gol com um zagueiro
só no nosso time e contra 11 atacantes do outro
lado. Enquanto, em algumas atuações
mais tradicionais, o revisor é responsável
pela correção gramatical e pela adequação
de estilo do texto em português, nós,
revisores lingüísticos de traduções
técnicas, temos que jogar nas onze. Se perguntarmos
ao gerente de projeto se a prioridade é a correção
gramatical, a adequação de estilo, a
correspondência entre o texto original e a tradução
ou a verificação da terminologia, ele
provavelmente vai responder: “tudo”. E
mais alguma coisa.
Além
dessa responsabilidade em campo, não podemos
descuidar do treinamento. Conhecer cada vez mais ferramentas
e formatos de arquivos, reciclar e sempre ampliar
os conhecimentos lingüísticos da língua
estrangeira e principalmente do português, manter-se
atualizado sobre o que há de mais moderno e
avançado na área de tecnologia são
alguns dos fundamentos.
E
quem é o técnico? Os cursos de formação
de tradutores são poucos, menos ainda os de
qualidade respeitável. De formação
de revisor, eu não conheço. Já
ouvi dizer que revisor não se forma; ou a pessoa
é ou não é. Ou então que
só se aprende na prática. Mas aí
quem vai ter a oportunidade de começar a carreira
como titular, já na primeira divisão?
Complicado.
Parece
que algumas características pessoais são
realmente recorrentes nos revisores: perfeccionistas,
meticulosos, detalhistas, críticos. Têm
olho clínico, mas sem perder a visão
de jogo. Têm bom conhecimento e paixão
pela camisa, quer dizer, pela língua portuguesa.
Essas características não necessariamente
são qualidades. Quantas vezes implicamos com
uma determinada estrutura, com uma certa tradução
já aceita por todos? A campeã pra mim
é “suportar”: O sistema suporta
as versões X, Y e Z. Essa EU não suporto.
Questões de estilo, então, são
tão pessoais. E aí? Mantemos o estilo
do tradutor, diferente do nosso, ou aceitamos?
É
pena que a correria dos prazos e dos volumes de trabalho
praticamente não deixe tempo para essas e outras
reflexões. Acredito que boa parte da nossa
formação, como tradutor e como revisor,
possa estar nessa troca. Na prática, poucas
são as oportunidades que os tradutores têm
de ter acesso às alterações feitas
pelo revisor. Quantas vezes deve ter acontecido de
o tradutor ter passado horas pesquisando um termo
ou aprimorando uma estrutura e o revisor matar aquele
trabalho numa passada de olho mais superficial pelo
original? O quanto essa intervenção
é ética? E quantas vezes ambos já
passaram horas tentando resolver a mesma frase quando
uma simples troca de email enriqueceria a discussão
e pouparia tempo dos dois lados?
Nessa
área, normalmente nós nem sabemos o
que aconteceu com a tradução ou a revisão
que entregamos, nem pensamos sobre elas. Assim, acabamos
assumindo menos responsabilidade sobre nosso trabalho
e contribuindo para continuarmos invisíveis.
Concordo que não devemos estar visíveis
no texto, mas aumentar nossa visibilidade na sociedade
e no mercado é um caminho de valorizar nossa
profissão.
Conforme
as memórias de tradução aumentam
e as empresas de localização começam
a implantar programas de tradução automática,
o passe de um bom revisor vai se valorizando no mercado.
Precisamos correr atrás de formar novos profissionais
e investir nos que já estão na área.
Vejo alguns caminhos possíveis: workshops,
reuniões da equipe antes e depois do projeto
(ou durante!), relatórios informais sobre as
principais questões, envio dos arquivos finais
do projeto para a equipe, simples trocas de emails.
Quem sabe com mais interação, reflexão
e visibilidade a gente não consegue chegar
perto dos salários milionários dos jogadores?
Ou pelo menos da camisa 10 no time dos nossos clientes.
Gabriela
Castelo Branco Ribeiro é
tradutora e revisora autônoma especializada
em localização. Formou-se em tradução
em 1998 na PUC-Rio, onde cursa atualmente o mestrado
em estudos da linguagem. Nas horas livres, gosta de
curtir o marido Cláudio e a filha Vitória,
de torcer pelo Flamengo (ou sofrer com ele) e de degustar
bons vinhos na ABS - Associação Brasileira
de Sommeliers.
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