Agências são de Marte, Tradutores são
de Vênus II:
a vingança dos venusianos
By
Claudia Moreira,
Journalist, Translator and Reviewer,
English into Brazilian Portuguese
claudia_moreira@terra.com.br
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English
Version
Aquele entre nós que nunca cometeu um dos pecados citados
pelo nosso colega, Fabiano Cid, que atire a primeira
pedra... Em um mercado onde as exigências são
cada vez maiores, os prazos mais apertados, as tarefas
mais complexas e as relações extremamente
delicadas, fica difícil não cair em tentação.
De todos os pecados citados, pela minha experiência pessoal, creio que
o mais comum seja o da gula. É possível
que muitos tradutores - e aqui faço meu mea
culpa, pois me incluo nesse grupo - estejam precisando
de sessões de psicanálise para aprender
a dizer não para um cliente, pois o receio
de ser atirado em uma espécie de limbo profissional
aflige a todos. O que fazer para não aceitar
o trabalho sem ser esquecido? E se você ferir
os sentimentos de um determinado cliente? Como agir?
Viver no lado de cá também não é nada simples. E
como já gerenciei projetos, sinto-me à
vontade para falar sobre os dois mundos. Se durante
um período quase fui levada à loucura
por determinados tradutores-pecadores, hoje me equilibro
na corda bamba dos clientes. Embora essa tenha sido
uma escolha da qual não me arrependo e que
me faz feliz, há momentos em que meu único
desejo é rasgar a carteira de identidade e
ir viver em Mauá, vendendo artesanato para
viver... Pena eu não ter talento para fazer
bijuterias...
O problema é que basta um passo em falso e lá se vai o relacionamento
construído com todo empenho e dedicação.
E muitas vezes, a polêmica nem é causada
pelos nossos gerentes de projeto aqui, mas por circunstâncias
igualmente enlouquecedoras que os levam a "repassar"
o estresse. No entanto, acho que há alguns
pontos em que a relação cliente-gerente-fornecedor,
apesar de muito delicada, poderia ser melhor.
É realmente muito importante que todos nós tenhamos consciência
da complexidade dessa relação. Ela comprova
claramente a tese de que "ninguém é
uma ilha". Os gerentes precisam dos tradutores para
a execução do trabalho. Os tradutores
precisam dos gerentes para garantir seu ganha-pão.
E todos precisam dos clientes.
Problemas existem, muitos, mas depois de dez anos nessa "indústria vital",
posso me considerar privilegiada por ter trabalhado
com muitos gerentes competentes, capazes de "descascar
os maiores pepinos" e que sabem administrar um projeto
como ninguém. Eles sabem o que enviar para
o tradutor, não abarrotam suas caixas de entrada
com emails administrativos desnecessários e
identificam bombas muito antes da detonação,
desativando-as a tempo. Felizmente, estes são
a maioria. Mesmo assim, já me deparei também
com pessoas que pareciam estar na profissão
a passeio. Pessoas que não tinham a menor noção
de quantas palavras um tradutor é capaz de
fazer por dia e muito menos faziam idéia do
que eram ferramentas de tradução. Assim
como há tradutores que acham que um cursinho
de inglês basta, há também gerentes
que caíram de pára-quedas no mercado.
Para gerenciar projetos de tradução, o profissional não
precisa ter sido necessariamente um tradutor antes.
Mas é essencial que ele fale a mesma língua
que seus fornecedores. Ele precisa ter noções
bastante precisas sobre as diversas características
do trabalho, como as ferramentas envolvidas, o prazo,
o número de tradutores que deverá contatar
para cumprir o prazo, uso de material de referência
(glossários, manuais de estilo, memórias
de tradução, Internet etc.). Afinal,
quando se encontrar em dificuldades, o tradutor recorrerá
a ele. E quando suas perguntas parecerem cair no vale
do eco, os problemas começarão.
O pecado do orgulho é comum a tradutores e gerentes. Se os primeiros
não conseguem aceitar críticas com um
mínimo de humildade, há também
gerentes "perfeitos". Nada os tira do caminho da certeza.
Nem um cliente estressado, nem os mais diversos problemas
pessoais. Tal como robocops, eles são máquinas
sem sentimentos, nunca afetados por fatores externos
e que simplesmente não erram. A culpa é
do mordomo...
Os robocops tendem a se tornar serial killers com o passar do tempo. São
tantos os tradutores que já foram devidamente
limados de seus cadastros que não sobra ninguém
para contar a história, ou melhor, fazer o
trabalho.
É o caso de repensar a relação. Por que acabei sozinho?
Será que eu também não tenho
problemas? Que tal férias? Às vezes,
cursos de aperfeiçoamento e seminários,
como discussões sobre as dificuldades da tradução,
também são bem-vindos, porque podem
ajudá-los a entender o outro lado. O isolamento
não é bom para nenhum profissional -
nem mesmo para o tradutor remoto, mas isso é
uma outra história - e engana-se o gerente
que pensa que não deve se envolver nesse tipo
de treinamento, que isso é só "coisa
de tradutor". Informação é tudo.
E quanto mais informações ele for capaz
de reunir, menos erros cometerá. E, principalmente,
maior será sua qualificação profissional.
Uma outra espécie é o Roteador Primário. O projeto é
uma batata que lhe queima as mãos e ele tem
que encaminhá-lo rapidinho, rapidinho. Nessa
ânsia, repassa o zip que recebeu do cliente
diretamente para o tradutor, que vai baixar 80MB de...
nada! Muitas vezes, ele nem sequer se deu ao trabalho
de tirar os arquivos e o material de referência
de chinês tradicional, coreano, japonês,
alemão, francês etc. do zip.
Tem também o Inacessível. Você liga de manhã e ele
está em reunião. Manda emails e não
recebe resposta. Liga de tarde e ele já foi
embora... Não há como estabelecer uma
parceria com um gerente assim. No dia da entrega,
ele tenta resolver todos os problemas, triplicando
o trabalho que poderia ter sido feito apenas uma vez,
se tivesse havido mais pró-atividade.
Mas nem tudo são pedras no relacionamento agência-fornecedores.
Há empresas nas quais profissionalismo e organização
são palavras de ordem. A maioria dos gerentes
lê e entende as instruções recebidas,
repassando-as com a maior propriedade. E assim estabelece-se
uma parceria sólida, capaz de enfrentar e sobreviver
aos maiores desafios (ou projetos). Quando o tradutor
recebe feedbacks e entende que isso o beneficia, pois
é tudo feito com o único objetivo de
ajudá-lo a crescer e a apresentar um trabalho
cada vez melhor, ele sente que faz parte. E, embora
remotos, gostamos de sentir que fazemos parte de uma
equipe, cuja única meta é a satisfação
do cliente.
E quando isso acontece, todos saem ganhando.
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