Seria a profissão de tradutor autônomo a mais democrática?
By
Steve Yolen,
a professional translator
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English
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Tenho idade suficiente para lembrar da vida sem Internet e correio eletrônico.
Quando iniciei minha carreira como escritor e tradutor, eu usava máquinas
de escrever manuais, e precisava recorrer, literalmente,
ao corte e colagem para reorganizar frases e parágrafos.
E eu tinha que entregar meus trabalhos "fisicamente"
na forma de papel, faxes ou mensagens transmitidas
por teletipo e telegramas; às vezes chegando
a ter que comparecer aos escritórios de meus
clientes e correspondentes!
O motivo dessa aula de história ancestral é sua pertinência
para fundamentar a tese deste artigo: no mercado de
trabalho dos dias de hoje, altamente tecnológico
e eletrônico, a profissão de tradutor
autônomo talvez seja a mais democrática
de todas. Através da inefável mágica
dos e-mails, FTPs, grupos de trabalho virtuais, conexões
de banda larga e tecnologia de ponta em telecomunicações,
atualmente os tradutores autônomos têm
o privilégio de poder trabalhar em praticamente
qualquer lugar que desejarem. Além de não
precisar interagir fisicamente com nenhum de seus
clientes remotos. Eu já iniciei projetos de
tradução no Rio de Janeiro, fiz a revisão
em Nova Friburgo e, da fazenda da minha irmã,
situada nas montanhas de Berkshire, no oeste de Massachusetts,
enviei o resultado final para os clientes.
Minha carteira de clientes tem cerca de 40 empresas em seis estados brasileiros,
nos EUA e na Europa. Já falei pessoalmente
com apenas cerca de metade deles (por telefone) e
só vi - em carne e osso - alguns poucos. Ao
contrário do que ocorria há dez anos,
quase tudo é resolvido por e-mail: pedidos
dos clientes, orçamentos, entrega de produtos.
Basicamente, a menos que eu queira, meus clientes
só sabem se sou homem ou mulher pelo meu nome.
Todo o resto - todos os fatores discriminatórios
- desaparece pelo filtro da interface eletrônica.
Em termos pessoais, isso tem um significado interessante.
Hoje, o tradutor autônomo profissional é
julgado exclusiva e inteiramente pelo trabalho que
produz, e não com base em sua raça,
cor, sexo, religião, nacionalidade, idade ou
deficiência física (fatores referentes
aos quais as diretrizes de oportunidades iguais definidas
pelo governo federal dos EUA procura oferecer proteção)
ou até mesmo critérios menos importantes,
porém reais, como gravidez, obesidade, traços
de personalidade, caspa, tatuagens ou mau hálito.
É uma revolução no mercado de trabalho internacional. E
pode ser totalmente atribuída ao advento da
Internet e do correio eletrônico. Imagine uma
entrevista de trabalho em que só contassem
as suas qualificações profissionais.
Que a continuidade do seu sucesso no trabalho dependesse
apenas da sua capacidade pessoal de atender às
exigências pertinentes a cada projeto. Se você
é jovem ou velho, preto ou branco, homem, mulher
ou se tem outra preferência sexual não
importa. Parece uma definição perfeita
de um local de trabalho democrático, uma verdadeira
meritocracia. Minha experiência mostra que o
ambiente corporativo, mesmo no país mais democrático
que conheço, os EUA, ainda apresenta muita
discriminação. Vejam a seguir uma explicação
daquilo que ocorre quando um processo por discriminação
no trabalho chega aos tribunais, segundo David H.
Greenberg. David é um advogado perito em discriminação
nos EUA, porém o fato de que existem advogados
especializados em discriminação já
é uma boa indicação do estado
incerto do mercado de trabalho nesse país:
"Até o presente momento, os tribunais permitiram que empregadores
discriminassem pessoas por terem cabelos compridos
e barba (exceto quando essa opção é
feita por motivos religiosos), peso (exceto quando
o peso se deve a um distúrbio de saúde)
e porque o empregador quer contratar ou promover alguém
da família. Por lei, um empregador pode se
recusar a contratá-lo por ser muito jovem,
mas não por ser muito velho (com mais de 40
anos). Nenhuma dessas categorias é protegida.
Em outras palavras, se a categoria de discriminação
não estiver claramente disposta em um estatuto,
o funcionário não está protegido
contra essa forma de discriminação.
Por isso, se o chefe não gostar de você,
mas você não souber porque ou se a categoria
não for protegida por lei, ele poderá
demiti-lo ou deixar de contratá-lo por esse
motivo."
Mas isso não ocorre com o tradutor autônomo que sabe se virar na
Internet. Você pode ter barba e mau hálito
e, ainda assim, conseguirá trabalho. Se o chefe
nem te conhece, não te demitirá. Você
será julgado simplesmente pelo mérito
do seu trabalho.
Sendo assim, parabéns a todos os tradutores autônomos por terem
escolhido aquela que pode ser considerada a profissão
mais democrática do mundo. Agora, é
claro, basta você ser tão bom quanto
todos os outros tradutores virtuais... Mas isso é
assunto para outra coluna.
Steve Yolen é
americano e mora no Rio de Janeiro. Ele trabalha como
tradutor profissional desde 1994, embora como jornalista
e correspondente estrangeiro no Brasil e na América
do Sul ele tenha trabalhado com tradução
em toda a sua carreira. Juntamente com Peter Warner,
ele comanda o serviço em língua inglesa
com qualidade final de publicação da
Ccaps e toca na banda Copacabana Handshake, de música
folk norte-americana.
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